sexta-feira, 11 de maio de 2018

O Cabelo de “Aquarius”: Que Brasil existe no mundo?

Publicada em 2016 no site colaborativo "Betoneira Atômica". “Em uma troca de cartas publicadas recentemente no Film Comment, o Sr. Mendonça Filho observou o paralelo entre Clara e a ex-presidenta do Brasil Dilma Rousseff (…) em que o cineasta e muitos outros artistas e intelectuais brasileiros descrevem como um legislativo e direitista Golpe de Estado.” (The New York Times) Assisti “Aquarius” (“Filme Kleber Mendonça Filho”) em uma sessão literalmente lotada no Shopping Tijuca - hoje o único local com cinema na região da Praça Saens Peña, tida nos áureos tempos dos cinemas de rua como a “Segunda Cinelândia” do Rio de Janeiro. Como bom tijucano que sou, cresci assistindo filmes diversos em salas antológicas como Cine Carioca (hoje uma famosa Igreja Pentecostal), Cine América (hoje uma filial de uma famosa rede de farmácias), Cine Castelo (hoje loja departamentos), Bruni (no fundo da galeria), Tijuca 1 e 2 (hoje cursinhos pré-vestibular), o outro da Conde de Bonfim na galeria vazada etc. Desde criança assistia naquelas enormes salas filmes que para mim hoje são clássicos da História do Cinema, como “O Casamento dos Trapalhões” de José Alvarenga Jr e “Esqueceram de Mim” de Chris Columbus, ambas as sessões me são memórias ainda muito vivas enquanto escrevo esse texto, o que reitera quanto cada filme assistido em cada sala da Saens Peña é tenra lembrança. “Aquarius” lembra os filmes do Carlão Reichembach. Isso eu li em comentários dos amigos Luís Rocha Melo e Leonardo Esteves nas redes sociais logo após ver o filme, concordei plenamente com a opinião no imediato momento em que me deparei com tal associação. “Anjos do Arrabalde” é sem dúvida um dos melhores filmes que já assisti em toda a minha vida. Betty Faria incrível, Ricardo Blat idem! Mas voltando a “Aquarius”: há o protesto por escrito em inglês e francês da parte do diretor e elenco do filme no tapete vermelho do Festival de Cannes, na sessão do oficial do filme concorrendo à Palma de Ouro. Protesto em Cannes, e o filme é ovacionado. Sonia Braga arrepiando, em um comeback nível John Travolta em Pulp Fiction, como bem disse Rodrigo Fonseca em uma de suas críticas. “Aquarius” torna-se mundialmente conhecido e é vendido para mais de 60 países após o Festival de Cannes. Tem destaque em publicações internacionais como The New York Times e Le Monde, pelo qual foi considerado o melhor filme em cartaz na cidade de Paris. Medidas políticas absurdas e abusivas vêm sido tomadas em larga escala a cada semana há meses, como a PEC 241 e as mudanças na CLT, por exemplo. No Brasil houve uma forte intenção de boicote a “Aquarius” por parte do poder público em seu lançamento em circuito comercial no país, com tentativa de impôr ao filme a indevida classificação etária 18 anos. Porém a produção recorreu legalmente e conseguiram reduzir para 16 anos. “Aquarius” passa a ser inimigo público do status quo regente no Brasil, e justamente por isso passa a ser perseguido. Enquanto obra de arte cumpre bem o seu papel. Porém é triste observar tudo isso se mostrando. Triste. Tudo muito triste. Então “Aquarius” não foi indicado pela comissão oficial de seleção para ser o filme brasileiro representante do país para a categoria “Filme em Língua Estrangeira”, e sim um filme absolutamente desconhecido chamado “Pequeno Segredo”. A comissão presidida por Bruno Barreto, cujas integrantes Carla Camurati e Adriana Rattes declararam publicamente seus respectivos voto no filme de Kleber Mendonça Filho, não convenceu ao declarar que a decisão foi não teve cunho político. Desafiando a escolha oficial a comissão, a mais importante publicação estadunidense - The New York Times - faz uma segunda crítica do filme, descrevendo o boicote politico brasileiro a “Aquarius” como um “tiro no pé” notório por parte da comissão, destacando a possibilidade real da Academia de Cinema de Hollywood indicar e premiar ao Oscar de melhor atriz Sonia Braga. E ela ganha fácil essa “Lotação”! Podem falar o que quiserem do Oscar, mas ainda é um evento cuja simples indicação já aumenta consideravelmente o alcance de um filme. Afinal, fazemos filmes para que as pessoas vejam. Ou não? Para mim, sim. Me senti muito bem assistindo “Aquarius” naquela sala lotada de público pagante na Tijuca, vendo Clara resistir a tudo e a todos, aos brados da platéia: “Fora canalhas!”. Clara gozando o esplendor de Sonia Braga em cena, simplesmente genial. Torcemos pela Clara ali, como quem torce pelo Brasil. Mas quem torce de verdade. Custei a acreditar que o filme tem a duração de 142 minutos, só descobri isso depois. Sonia Braga nos prende em suas teias de forma saborosa, nessa metáfora do que é o Brasil, de hoje, de sempre. Toda a platéia saiu radiante, mobilizada por aquele ode à não-resignação. “Pequeno Segredo” ficará eternamente conhecido como o filme emblemático do Golpe de 2016. Não terá relevância internacional alguma, vai passar na Sessão da Tarde e estará “on demand” em HD. Mais um. Sonia Braga será indicada ao Oscar de melhor atriz coadjuvante. Entrará para a história ao ser a primeira brasileira a ganhar o prêmio. E domingo Marcelo Freixo será eleito prefeito do Rio de Janeiro, apoiado pelo ator Humberto Carrão. Obrigado ao diretor Kleber Mendonça Filho, elenco e equipe, por existirem. Amei essa nova obra-prima do cinema brasileiro chamada “Aquarius”! Felipe Cataldo é professor e diretor de Cinema.